segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Aficionados por ônibus formaram até uma confraria do meio de transporte

Há um tempo, eles eram chamados busólogos, denominação para estudiosos de ônibus. Isso existe, caro leitor, mesmo que você nunca tenha ouvido o termo. Porém, para esses apreciadores do meio de transporte, a designação já caiu em desuso.
“Somos admiradores desse tipo de veículo”, declara o jornalista Bruno Freitas, de 30 anos, fundador da Confraria do Ônibus de BH, grupo que reúne aficionados por ônibus de várias partes de Minas.
A maioria deles carrega a paixão desde a infância e, atualmente, participam de encontros de modelos antigos e movimentam as redes sociais. No Facebook, eles são mais de 600, sem contar o grupo no WhatsApp, no qual trocam informações sobre o setor, lançamentos do mercado, fazem seminários sobre o assunto e marcam os encontros da turma.
Eles não apenas admiram, como gostam de usufruir do meio de transporte. “O ônibus convencional no Brasil é desconfortável, mas os de viagem são muito bons”, comenta Bruno, que considera o Move uma evolução do setor em BH.
Em casa, o rapaz guarda cerca de 40 miniaturas de ônibus em materiais como madeira, metal e papel. Mas não é só isso. “Tenho um acervo de 30 mil fotos de ônibus de todo o mundo”, garante.
O primeiro encontro do grupo aconteceu em julho do ano passado, em Itaúna, com cerca de 20 modelos antigos. “Nós temos por hobby de resgatar a história do transporte em Minas”. Encontros nacionais ocorrem a cada dois anos.
Paixão que vem da infância
Quando criança, o empresário Julio Cesar Diniz, de 57 anos, sempre reparava em como os motoristas de ônibus se cumprimentavam e nos modelos dos veículos quando saía de Belo Vale, na região Central de Minas, rumo a capital.
“Na época, todas as vezes que vínhamos para BH tinha que ser de ônibus. E eu era encantado com isso”, rememora o empresário, que acabou se tornando dono de uma grande frota, e atualmente reforma três modelos antigos e emblemáticos, como o Mercedes-Benz Ciferal de 1976.
A paixão, além de levá-lo a trabalhar com o meio de transporte, o aproximou de pessoas com gostos em comum. “Isso é natural. Até que fui convidado pelo Bruno a criarmos a Confraria do Ônibus”, conta.
Assim como os colegas, ele também possui um arquivo com fotos de modelos diferentes, mas que ele mesmo fotografa. São cerca de 500 imagens feitas desde sua primeira viagem internacional há mais de 30 anos.
Integrantes da Confraria do Ônibus e as miniaturas de suas coleções. Foto: Flávio Tavares/Hoje em Dia
Miniaturas e acervo
Na vida do motorista Eugênio Ilzo, de 46 anos, de Divinópolis, tudo começou quando tinha apenas nove anos de idade. “Meu pai trabalhava em borracharia, atendia empresas de ônibus e eu o acompanhava”, lembra. As idas até a garagem onde ficavam os veículos despertaram em Eugênio a vontade de desenhar. “Comecei assim. Desenhava no papel e colava na madeira. Comercializava entre os motoristas”, descreve.
Durante 23 anos dividiu sua rotina em trabalhar como motorista de ônibus, fazer miniaturas e projetos de pintura para as empresas. Atualmente ele prioriza as duas últimas funções. “Hoje é raro eu pegar uma viagem. Mas para não perder o costume às vezes faço alguma”, comenta o motorista que possui aproximadamente 200 mil fotos de ônibus, sendo 90% de sua autoria e 50 mil delas reveladas. Sem contar o acervo de duas mil revistas sobre o tema.
O que no começo era pura brincadeira de criança acabou se tornando negócio. Eugênio já mandou miniaturas até para a África. “Já vendi para colecionadores do Panamá, Peru, México, Argentina, Chile e Inglaterra”, enumera.
O motorista Eugênio Ilzo e as miniaturas que confecciona. Foto: Arquivo Pessoal
Fixação se transforma em trabalho de design
O designer André Orandi, de 28 anos, já tentou lembrar quando iniciou essa paixão por ônibus, mas o esforço foi em vão. “Meu pai viajava muito. Sempre ia com ele até a rodoviária e ficava reparando nos modelos para chegar em casa e desenhar. Isso aos cinco anos de idade”, rememora o rapaz.
Tudo se intensificou quando ele ganhou um computador. “Navegando na internet vi sites sobre o assunto e encontrei pessoas que também gostavam de ônibus, que é algo bem peculiar”, conta André, que na adolescência não revelava aos amigos que tinha esse hobby. “Tinha vergonha porque parecia algo de menino bobo”, se diverte.
André mostra orgulhoso seu projeto de conclusão de curso pautado nos ônibus. 
Foto: Frederico Haikal/Hoje em Dia
Futuro
O passatempo ficou sério e se tornou um projeto de pintura e identidade visual para ônibus. O meio de transporte foi o mote para o trabalho de conclusão do curso de Designer.
“Fiz um projeto sobre o sistema de comunicação dos ônibus de Belo Horizonte. Foi uma ideia para falar do que eu gosto e contribuir para a sociedade”, justifica.
No projeto, André descobriu que a população, na maioria das vezes, não sabe como funciona o sistema de códigos, que engloba as cores dos ônibus e siglas que carregam. “Por enquanto são projetos, espero um dia concretizar tudo isso”, almeja.
Enquanto isso não acontece, André segue com as pinturas e acompanha a turma da Confraria do Ônibus nas redes sociais. “Não vou muito aos encontros, mas sigo a turma virtualmente”, conta.

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